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Saúde

Janeiro branco: especialistas alertam para os cuidados no retorno presencial das atividades

Publicado em: 21/01/2021

A saúde mental de quem cumpre medidas de distanciamento social também é responsabilidade das empresas

Por Thaiany Osório, para Super Cérebro

Saúde mental e qualidade de vida. Aí está um assunto que não saiu dos holofotes em 2020, ano em que o mundo foi surpreendido pela Covid-19 e muitas pessoas deixaram seus escritórios e passaram a trabalhar de casa. Antes disso, especialistas já apontavam para uma epidemia de ansiedade e depressão. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), o Brasil é considerado o país mais ansioso do mundo e o quinto mais depressivo. Em tempos de isolamento social, esse cenário se tornou drasticamente pior. Segundo dados da pesquisa ConVid*, cerca de 40% dos brasileiros entrevistados sentiram tristeza ou depressão na pandemia. 

Vera Batista, psicóloga com mais de 15 anos de experiência em Recursos Humanos, e Adriana Rigueiro, psicóloga clínica e docente na área de psicologia do trabalho, percebem no dia a dia a realidade desse dado. Ambas notaram um aumento de incertezas e inseguranças em seus colegas de trabalho, pacientes e alunos. Segundo elas, além dos medos corriqueiros, como o de morrer, ser atropelado ou assaltado, as pessoas que trabalham em casa passaram a temer perder o emprego, ficar sem o computador ou se esquecer de uma reunião importante. 

Ainda sobre a pesquisa ConVid*, foi descoberto que três entre 10 fumantes aumentaram o número de cigarros consumidos por dia e o consumo de bebidas alcoólicas cresceu cerca de 17% durante a pandemia. Fazendo um paralelo com os dados, Adriana discorre sobre o fato das características das pessoas ficarem mais exacerbadas durante o isolamento. “Os problemas não surgiram com a pandemia. Muitas pessoas estavam deprimidas antes, já tinham problemas e viviam em seus mundos caóticos”, explica, interpretando o aumento no consumo de drogas lícitas como um sinal de compensação, ou fuga da realidade. 

Vera também explica que as pessoas estão sobrecarregadas de expectativas do trabalho, da família, dos parceiros e dos filhos. Somado ao medo da doença, há um aumento nos níveis de ansiedade, piorando o quadro do paciente. Para Adriana, este funcionário precisará de ajuda quando voltar ao trabalho presencial, pois foi a empresa que se colocou dentro da casa dos seus funcionários, então precisa saber o que está acontecendo com eles. "O papel das empresas é fundamental no acolhimento desses profissionais. A pergunta que importa, no entanto, é se elas estão preparadas para isso”, indaga. 

Uma mudança cultural que começa pela liderança

Em 2014, o Brasil passou a comemorar no primeiro mês do ano o "Janeiro Branco", destinado à conscientização e divulgação das questões e necessidades relacionadas à Saúde Mental e Emocional das pessoas. Para Adriana, que acompanhou alguns pacientes se escondendo dos parceiros e fazendo terapia on-line dentro dos carros, estamos em um momento muito propício para falar sobre o assunto. Vera, descrente da expressão “novo normal”, concorda: “A pandemia mudou os humanos, e ainda os mudará muito daqui para a frente. Para mim, tudo veio para confirmar a necessidade das organizações se reinventarem.”

Essa necessidade de transformação, contudo, esbarra na conscientização do tema no ambiente corporativo. “A área da saúde mental virou uma coisa ‘bonitinha’, socialmente aceita. Acham que uma rede e área verde são suficientes”, desabafa Adriana, citando a superficialidade com que as empresas costumam tratar o assunto. Para ultrapassar essa barreira, ambas as psicólogas defendem a tese de que a mudança precisa começar pela liderança. Afinal, de nada adianta gastar em curso de inteligência emocional, ou mesmo pagar terapia para os funcionários, se o líder não tem um interesse sincero pela saúde mental dos seus trabalhadores. 

Como um grande guarda-chuva, as ações de saúde mental precisam ser diversas e amplas dentro das organizações. “O trabalhador precisa tomar consciência do sofrimento que o trabalho está causando a ele, e a empresa também precisa tomar consciência do sofrimento que está causando aos seus funcionários”, explica Adriana. Além de um ambiente seguro, em que os funcionários são ouvidos e se sentem valorizados, as empresas precisam exigir humanização e transparência dos líderes, para que eles possam identificar focos de problemas em si mesmos e em suas equipes. 

O objetivo, portanto, não é que o líder cure as questões mentais do seu funcionário, assim como não se espera que trate um problema de tireóide, mas sim que o encaminhe ao setor responsável. Portanto, as empresas deverão criar diretorias responsáveis pela saúde mental dos funcionários e buscar parcerias com instituições e programas que façam acompanhamento terapêutico. “Por isso, para mim, é uma questão de mudança cultural, de pensamentos e atitudes”, explica Vera. 

No que se refere à complexidade do tema, as psicólogas concordam que é difícil interferir na mentalidade das pessoas e no modo operante de uma organização empresarial. Cumprir metas, manter a qualidade do serviço e buscar crescimento são importantes tanto para a empresa, como para o funcionário, que se sente motivado e inspirado pelo trabalho que realiza. Para as especialistas, é possível equilibrar tais objetivos e manter a si mesmo e os colegas de trabalho saudáveis. 

“É um momento difícil, eu sei, mas as pessoas podem se transformar. Eu mudei, a Adriana mudou, pensávamos diferente anos atrás. Muitas empresas estão buscando essa preparação, outras nem começaram, mas o importante, no momento, é perceber que existem possibilidades”, finaliza Vera. 




*Os dados presentes nesta reportagem foram extraídos da pesquisa ConVid, realizada em parceria pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), a Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e a UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). A pesquisa foi realizada via web, entre 24 de abril e 24 de maio de 2020, e alcançou 45.161 brasileiros.


Tags: saúde mental, liderança, trabalho, depressão, ansiedade, janeiro branco, empresas
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