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“Bom jogo é aquele que traz experiência e identificação com o jogador” | Entrevista com Galápagos

Publicado em: 09/02/2021

Por Thaiany Osório, para Super Cérebro


Difícil é achar alguém que não tenha memórias de partidas travadas na rua de casa, no intervalo da escola ou na mesa de jantar. Os ditos jogos clássicos, como gamão, ludo, xadrez e dominó ocuparam boa parte da infância das crianças nascidas no século passado e causam saudosismo nos adultos de hoje. Entretanto, os primeiros jogos da humanidade são datados muito antes do alcance da nossa memória. No Egito antigo, os faraós eram enterrados com kit’s de jogos para ocupar o tempo na próxima vida. Com o surgimento das rotas comerciais, os jogos do oriente se espalharam por toda a Europa e depois pelas Américas. 

Apesar de não haver um consenso exato, muitos historiadores consideram que os jogos de tabuleiro modernos começaram a aparecer no fim do século XX e que, com a chegada do Século XXI, passaram por um período de redescoberta. Mais modernos e inovadores, acompanharam as características do seu tempo e estão oferecendo novas dinâmicas aos jogadores. Hoje encontra-se de tudo: jogos competitivos, interativos e colaborativos; com duração de cinco minutos, meia hora ou três horas; individuais, em dupla ou com mais de doze pessoas. Também passaram a focar no protagonismo dos jogadores, de modo que a sorte deixou de ser determinante. A estratégia e o planejamento, por outro lado, ganharam destaque. 

Só em 2018, segundo dados do site Boardgame Geek, foram lançados mais de 5.000 jogos de tabuleiro originais em todo o mundo, sendo que 313 deles tiveram versões brasileiras. Pela quantidade de títulos lançados anualmente e as diversas temáticas presentes, muitos consideram que estamos na "Era de Ouro" ou "Renascença" deste tipo de entretenimento.

Anne Solai é gerente de Novos Negócios na Galápagos, editora e distribuidora nacional da nova geração de jogos de tabuleiro e cartas, miniaturas, RPG, livros e brinquedos. Anne recorda-se de assistir os pais jogando com um grupo de casais e de um professor do ensino médio que se destacava dos demais por utilizar jogos de tabuleiro em sala de aula. Os anos se passaram e sua ligação com os jogos se fortaleceu. “Fazer parte disso, e trazer mais pessoas, é muito bom e gratificante”, conta, orgulhosa de ser a amiga que, nos dias de churrasco, é convocada para levar os jogos e animar a galera.

Nesta entrevista, Anne fala um pouco sobre Soft Skills, o caráter pedagógico dos jogos e os aprendizados que os adultos podem adquirir através deles.


Existe, ou pelo menos existia até tempo atrás, o senso comum de que não se jogam mais jogos analógicos. Isso ainda se sustenta?  
Acho que é uma questão de público. Temos algumas feiras de jogos pelo mundo e as que acontecem na Alemanha marcam o início do inverno. O inverno é sinônimo de frio, neve e reclusão, então os festivais são suspensos e as famílias não têm muitos lugares para ir.  Por isso, vão às feiras de jogos para escolherem qual jogo irão jogar durante a estação. Então observamos grande crescimento de jogos no mundo, e o Brasil vem acompanhando essa crescente, mas tem países que possuem essa cultura um pouco mais forte. Aqui, em particular, as famílias têm buscado os jogos porque querem um momento de interação, ou uma ferramenta diferente de desenvolvimento social e educacional. 


Os jogos sempre tiveram um caráter pedagógico, ou esses objetivos são mais recentes na história dos jogos?
Sempre foram criados com a função do entretenimento. O que acontece é que durante um jogo você consegue desenvolver muitas Soft Skills. Uma pessoa que precisa se preparar para uma grande apresentação em público pode, através de uma partida de Dixit, por exemplo, além de treinar suas habilidades comunicacionais e sociais, treinar outros conceitos, como esperar a vez do outro, interpretação, empatia e escuta ativa. Isso se encaixa tanto na criança, que ainda está aprendendo a se comunicar, como no adulto. 



Vencedor do prêmio de melhor jogo do ano em 2010, o seu objetivo é descobrir qual é a carta do narrador da rodada.  (Imagem: reprodução)


O processo de desenvolvimento dessas habilidades durante as partidas se dá de maneira individual ou em equipe?
Todos nós somos diferentes. Talvez uns tenham facilidade no raciocínio lógico e em matemática, outros em comunicação e criatividade. Isso é visto, muito provavelmente, durante a partida. Quem joga se autoavalia depois, percebe se falhou em criar estratégias, se fez uma boa gestão dos recursos, se teve raciocínio lógico. Mesmo quem é bom em comunicação, por exemplo, verá no jogo uma forma de, se não melhorar essa habilidade, no mínimo exercitá-la. Por isso, penso que passa pela questão do individual e do protagonismo, porque é você com as suas decisões, não é o jogo que te leva, você faz o jogo. O processo se dá quando as pessoas percebem isso.


Às vezes fica mais fácil observar os aprendizados em crianças em formação, mas como ele se dá em adultos?
Acredito que todos aprendemos da mesma maneira, a questão é que a procura e o foco da aprendizagem mudam de acordo com a idade. Uma criança tem a necessidade de aprendizagem mais generalista – olhando para diversos aspectos –, já o adulto reconhece e procura a aprendizagem focada em pontos de desenvolvimento e aprimoramento. Vou dar um exemplo: uma pessoa pode se dar muito bem com a sua equipe, mas daqui 5 meses será remanejada para outra, e precisará se adaptar. Como trabalhar essa flexibilidade nos profissionais? Posso citar inúmeros jogos que ajudam a tornar o processo de aprendizado mais dinâmico e divertido, como o Concept, o Ticket To Ride ou mesmo o Pandemic, que é exatamente o que estamos vivendo hoje. A verdade é que não importa a idade, todos nós estamos sempre em desenvolvimento e não precisamos sentar na mesa e só ouvir outra pessoa falar para alcançar isso. É possível romper as barreiras da sala de aula e levar a diversão e o aprendizado para as famílias, os amigos e todas as outras esferas sociais. 



Em Pandemic, várias doenças virulentas eclodiram simultaneamente em todo o mundo. Sua missão é liderar uma equipe e salvar o planeta. (Imagem: reprodução)


Hoje existem empresas que usam jogos em processos seletivos, ou clínicas de idosos que também os utilizam com fins neurológicos/fisioterápicos. Como enxergam esse movimento?
Vemos muitos educadores e profissionais da área de desenvolvimento pessoal usando os jogos porque sabem que eles são um laboratório vivo e seguro para que as pessoas possam se analisar e aprender. Vemos também muitos idosos buscando os jogos para incentivar a memória e o raciocínio lógico, e este é um movimento que já acontecia antes e vem crescendo de maneira mais organizada. Para nós é muito positivo porque amplia as possibilidades para inovarmos e garantirmos uma interação diferente. Nas empresas e no ensino superior, por exemplo, é tão bom quanto, porque o mercado de trabalho procura profissionais com habilidades socioemocionais e cognitivas desenvolvidas. 


O que espera para o futuro dos jogos de tabuleiro?
É um setor que continua crescendo de maneira natural e espontânea. Vemos muitos simpósios voltados para o tema, e é interessante observar as diversas áreas de pesquisa que envolvem um jogo. Temos projetos que envolvem o meio social, a educação, a saúde, a cultura… É grande o número de aplicações e de possibilidades que um jogo fornece, e a cada ano esse número aumenta conforme os jogos se inovam. O mercado está nos levando, como consumidores, para novas experiências. Observo mais famílias buscando se reconectar, sentar em uma mesa e jogar olho no olho. Querem vivenciar momentos com toda a família, porque é possível jogar com pais, crianças, avós e tios em pé de igualdade. É uma questão de socialização. Uma vez li que o primeiro contato de uma criança com o que chamamos de “pacto social” é através das regras do primeiro jogo que ela jogar, porque ela sabe que precisará respeitar a vez do outro, não tirar vantagem do colega, lidar com os sentimentos que o jogo traz, e aprender a perder e a ganhar. 


Peças do jogo Pandemic. (Imagem: reprodução)


Por fim, como definiria um bom jogo? 
É uma questão muito pessoal. Sempre ouço na Galápagos que não existe pessoa que não gosta de jogar, ela só não encontrou seu jogo ainda. Alguém muito competitivo, por exemplo, precisa de um jogo competitivo, que envolve estratégia e raciocínio lógico. Já quem tem o perfil mais cooperativo, vai gostar de um jogo em equipes. Na verdade, o bom jogo é aquele que traz uma experiência e identificação muito grande com seu jogador. O jogo precisa conversar com você, te trazer uma experiência incrível e positiva, que te desafie, que te faça aprender e também se questionar.



Aplicação: 

Todos os jogos citados nesta reportagem são utilizados pelo Grupo Super Cérebro como práticas para o desenvolvimento de habilidades cognitivas e socioemocionais de crianças, jovens e adultos de todas as idades. O Grupo Super Cérebro opera em mais de 350 cidades em todo o Brasil por meio de sua rede de franqueados. Confira a unidade mais próxima de você em supercerebro.com.br/unidades 



 


Tags: Soft Skills , Habilidades socioemocionais , Jogos de tabuleiro, Galápagos
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